Copa do Mundo 2026: ONGs alertam para violações de direitos humanos em países-sede e impactos na migração
A aproximação da Copa do Mundo de 2026, que será realizada conjuntamente nos Estados Unidos, Canadá e México, reacendeu o debate global sobre os impactos sociais e humanitários dos megaeventos esportivos. Organizações não governamentais de todo o mundo têm levantado alertas sobre questões que vão desde a migração forçada de comunidades vulneráveis até a repressão de protestos legítimos, passando por condições degradantes de trabalho nas obras de infraestrutura relacionadas ao evento. No Brasil, o tema também ressoa com força, uma vez que o país ainda carrega as marcas sociais e econômicas deixadas pela Copa de 2014.
O histórico preocupante dos megaeventos esportivos
Não é de hoje que grandes torneios esportivos internacionais são alvo de críticas por parte de organizações de defesa dos direitos humanos. A Copa do Mundo do Qatar em 2022 expôs ao mundo as condições desumanas a que trabalhadores migrantes foram submetidos nas construções dos estádios. Segundo relatórios da Anistia Internacional e da Human Rights Watch, milhares de trabalhadores oriundos de países como Nepal, Bangladesh, Índia e Paquistão morreram ou sofreram acidentes graves durante as obras, em um sistema de trabalho que foi comparado à servidão por dívida.
A Federação Internacional de Futebol (FIFA) e os comitês organizadores locais frequentemente prometem padrões elevados de responsabilidade social, mas ONGs afirmam que a fiscalização é insuficiente e que as promessas raramente se traduzem em ações concretas no campo. Para a Copa de 2026, os alertas já começaram a surgir com antecedência, o que representa, ao menos, um avanço em termos de pressão pública e transparência.
Migração forçada: comunidades removidas em nome do espetáculo
Um dos pontos mais sensíveis levantados pelas ONGs diz respeito à remoção de comunidades de baixa renda para dar lugar a obras de infraestrutura, ampliação de estádios, construção de hotéis e renovação urbana nas cidades-sede. Esse fenômeno, conhecido como gentrificação induzida por megaeventos, já foi amplamente documentado no Brasil durante a preparação para a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016.
Segundo levantamento da ONG Habitat International Coalition, estima-se que mais de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas em função de megaeventos esportivos ao redor do mundo nas últimas duas décadas. No contexto da Copa de 2026, cidades como Los Angeles, Nova York e Dallas, nos Estados Unidos, já registram movimentações de organizações comunitárias que protestam contra a especulação imobiliária intensificada pela proximidade do evento.
No México, cidade do México e Guadalajara enfrentam pressões similares. Favelas e assentamentos informais próximos a zonas de interesse turístico têm sido alvo de ações de remoção que, segundo ativistas locais, carecem de transparência, consulta pública adequada e garantias de realocação digna para os moradores afetados.
Protestos e liberdade de expressão sob ameaça
Outro ponto de atenção destacado pelas organizações de direitos humanos é a tendência de governos anfitriões em restringir manifestações públicas durante o período dos megaeventos. No Qatar, em 2022, a realização de protestos era praticamente inviável dada a legislação local extremamente restritiva. Nos países que sediarão a Copa de 2026, o cenário jurídico é diferente, mas as preocupações persistem.
Nos Estados Unidos, em especial, organizações como a American Civil Liberties Union (ACLU) já sinalizaram preocupação com o potencial uso de tecnologias de vigilância em massa durante o evento, incluindo reconhecimento facial, monitoramento de redes sociais e ampliação do aparato policial em zonas de segurança ao redor dos estádios. A experiência das manifestações do movimento Black Lives Matter em 2020 demonstrou que o Estado americano pode adotar posturas repressivas em contextos de grande visibilidade internacional.
No México, um país que convive com altos índices de violência e com uma imprensa frequentemente ameaçada, jornalistas e ativistas temem que o clima de exceção criado em torno da Copa possa ser utilizado como pretexto para silenciar vozes críticas ou para desviar a atenção de problemas estruturais como corrupção, impunidade e desigualdade social.
Trabalhadores e condições laborais: um alerta recorrente
A questão das condições de trabalho nas obras relacionadas à Copa também está no radar das ONGs. Embora os três países anfitriões de 2026 possuam legislações trabalhistas mais robustas do que o Qatar, a precarização do trabalho em setores como construção civil, hotelaria e serviços gerais é uma realidade que não pode ser ignorada.
Nos Estados Unidos, a presença significativa de trabalhadores imigrantes indocumentados no setor da construção civil levanta questões sobre vulnerabilidade a abusos, dificuldade de acesso à Justiça e risco de exploração por parte de contratantes que se aproveitam do medo de deportação. Com o endurecimento das políticas migratórias americanas nos últimos anos, esse grupo se torna ainda mais suscetível a violações de direitos.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) já publicou diretrizes específicas para que eventos esportivos de grande porte adotem cadeias de fornecimento responsáveis, garantindo que empresas contratadas e terceirizadas respeitem normas mínimas de segurança, remuneração justa e liberdade sindical. O cumprimento efetivo dessas diretrizes, no entanto, depende de fiscalização rigorosa e de vontade política dos organizadores.
O legado brasileiro e as lições não aprendidas
O Brasil tem uma perspectiva única nesse debate. O país que sediou a Copa de 2014 ainda lida com os chamados elefantes brancos — estádios construídos ou reformados a um custo bilionário que hoje operam com prejuízo ou estão subutilizados. A Arena Amazônia, em Manaus, e o Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, são exemplos frequentemente citados como símbolos do mau uso do dinheiro público em nome de um evento que prometia transformar o país.
Além do impacto econômico, as remoções realizadas no Brasil para a Copa de 2014 afetaram dezenas de milhares de famílias em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Fortaleza. Muitas dessas famílias foram realocadas para regiões distantes de seus empregos e escolas, sem infraestrutura adequada e sem qualquer forma de reparação justa. Relatórios do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas documentaram essas violações em detalhes, mas pouca accountability foi gerada.
Para especialistas em direitos humanos, o caso brasileiro é emblemático de como a euforia dos megaeventos pode obscurecer custos sociais profundos que recaem de forma desproporcional sobre as populações mais vulneráveis.
O papel das empresas e dos investidores institucionais
Em um contexto em que critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) ganham cada vez mais relevância no mercado financeiro global, a forma como empresas e patrocinadores se posicionam diante dessas questões começa a ter peso nas decisões de investimento. Fundos de pensão, gestoras de ativos e investidores institucionais brasileiros que mantêm posições em empresas patrocinadoras da Copa ou em setores ligados à sua realização devem ficar atentos aos riscos reputacionais e regulatórios associados a violações de direitos humanos.
A pressão de acionistas por maior responsabilidade corporativa em eventos de alto impacto social é uma tendência crescente. Em 2022, diversas gestoras internacionais apresentaram resoluções em assembleias de acionistas de empresas patrocinadoras da Copa do Qatar exigindo transparência sobre práticas trabalhistas na cadeia de fornecimento. Esse tipo de ativismo acionário tende a se intensificar para a Copa de 2026.
Para investidores individuais brasileiros que acompanham o setor de turismo, hotelaria, construção civil ou varejo esportivo, compreender os riscos ESG associados a esses eventos pode ser um diferencial na hora de avaliar o potencial de longo prazo de determinados ativos.
O que as ONGs pedem
As principais demandas das organizações de direitos humanos para a Copa de 2026 incluem: a criação de mecanismos independentes de monitoramento e denúncia para trabalhadores; a garantia de que remoções de comunidades sejam feitas apenas em último recurso, com consulta pública, indenização justa e alternativas dignas de moradia; o compromisso explícito da FIFA e dos comitês organizadores com a proteção da liberdade de expressão e do direito de protesto; e a adoção de padrões trabalhistas internacionais em toda a cadeia de fornecimento do evento.
Organizações como Amnesty International, Human Rights Watch, FairSquare e várias redes de defesa de trabalhadores migrantes já enviaram cartas abertas à FIFA e aos governos dos três países anfitriões solicitando reuniões formais e a publicação de planos de ação concretos até o início do torneio.
Conclusão
A Copa do Mundo é, inegavelmente, um dos maiores espetáculos do planeta, capaz de gerar bilhões em receitas, movimentar economias e unir pessoas ao redor de uma paixão comum. Mas por trás das luzes dos estádios e da emoção dos jogos, há histórias de pessoas deslocadas, trabalhadores explorados e comunidades silenciadas que merecem atenção e responsabilização. O Brasil, que viveu essa experiência na própria pele em 2014, tem não apenas a sensibilidade, mas também o dever de acompanhar criticamente o que se passa nos países anfitriões de 2026 — e de exigir que os erros do passado não se repitam. Para empresas, investidores e cidadãos, estar informado sobre esses impactos não é apenas uma questão ética, mas também uma forma inteligente de navegar em um mundo onde responsabilidade social e performance financeira estão cada vez mais entrelaçadas.




